Dor e Renovação

As nuvens negras no céu refletia sua alma.

Os trovões representavam seus gritos engasgados e a chuva caía no ritmo de suas lágrimas.

Porém, ela seguiu.

O movimento das pessoas na rua era intenso, todas apressadas a procura de abrigo. Guardas-chuvas chocavam-se atrapalhando a passagem.

Ela seguiu.

Tinha que ignorar e chegar o mais rápido possível.

A respiração ofegava e o coração, que era para estar acelerado, acompanhava. Seus passos eram pesados.

Puxava seu sobretudo na tentativa de não molhar-se e ao mesmo tempo apertava seu coração com o punho fechado na esperança que aquela dor passasse.

Soluço.

Agora estava de frente para o elevador que marcava o sétimo andar. Essa espera trazia uma descarga de energia e uma paralisia instantânea.

Culpada.

Por que o abandonara?

“Vá querida, fique tranquila. Você precisa de um banho e descansar um pouco. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.”

Como poderiam mentir tão descaradamente? Conseguiram momentaneamente enganar-me, já parecia que tudo estava sobre controle. Era aquela tal esperança que teima em ser a última a morrer e sempre morre. Nesse caso, junto com a minha vontade de viver.

A minha vontade de viver que estava ali no mesmo sétimo andar que o elevador se encontrava, que me acompanhou por toda minha vida desde o meu nascimento. Além de um irmão, uma alma gêmea.

O que resta? Vazio. É isso que resta e nada vai preencher porque nada mais faz sentido.

Quando encarei seu rosto sem vida minhas pernas perderam o pouco da energia que restava. Caí no chão e fui me arrastando com lágrimas aguando o caminho por onde passava. Meu coração agora batia muito forte e era como eu estivesse levando socos dentro de mim.

Por quê? Eu não conseguia entender! Por quê?

Tentava procurar os olhos que sempre me transmitiam tranquilidade e eles estavam, junto com o rosto, fechado e sem ação.

Sacudi seu corpo imóvel e gritei em protesto. As pessoas em volta até tentaram me afastar, mas eu levaria o corpo do meu irmão junto com os aparelhos que nele estava ligado. Aparelhos que não faziam mais sentido.

Meu soluço após horas foram se silenciando, eu só lembro que adormeci em cima da cama segurando a sua mão. Sua mão morta.

Anos Depois…

– Todos já foram, pode ficar a vontade.

Era a primeira vez que amamentaria meu filho e queria ter esse momento especial só para mim.

Tão pequeno e tão indefeso.

Qualquer movimento era delicado demais e eu ainda não sabia como segurá-lo direito.

Incrível como o amor que eu sentia por ele preenchia todo meu coração, meu corpo e minha alma.

Não parava de olhá-lo. Cada segundo era importante e a sensação de uma vida depender de mim e eu puder dar de tudo de melhor era maravilhosa.

Reparei que aos poucos ele mexia os olhos que não tinham aberto até então. Aos poucos suas pálpebras levantaram e um olho negro que tentava focalizar alguma coisa em vão.

De repente uma tranquilidade familiar me dominou.

(quinta-feira, 4 de novembro de 2010)

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