Quero toda noite.

Quantos livros estavam sobre a mesa, eu já tinha perdido as contas. Canetas coloridas para marcar frases ou palavras importantes estavam por todos os lados. Verde, azul, amarelo… As horas… Acho que meu relógio tirou férias.

Era fácil me concentrar quando estava sozinha em casa, mas, era mais fácil ainda quando escutava a sua música vinda da sala. Aquele silêncio todo agonizava meu tímpano. Era mais do que uma sensação de estar sozinha, a sensação de estar sem ele.

Inconscientemente eu levantava até a sala para olhar o violão pendurado na parede, ou então o piano no centro do cômodo. Vazios. Acreditem, dói. A sua melodia preenchia toda a casa como um aroma de paz e tranqüilidade. Um lembrete da felicidade não importando seu instrumento de origem.

“Só por enquanto, só por enquanto”. É o que eu sempre repetia. Às vezes em voz alta, às vezes mentalmente. A qualquer momento a campanhia irá tocar e ele estará com os braços abertos pronto para me receber. Já ficou irritante a espera. Eu precisava daquela maldita música de fundo na minha vida.

Olhei e deitei na cama de casal vazia atrás de mim. Essa foi, sem dúvidas, a viagem mais longa que ele tivera. Abracei minhas pernas e comecei a cantar baixinho a música, de sua autoria e dedicada a mim, para ver se preenchia um pouco o coração. Se o aperto passava, não sei informar, mas ocupava meus pensamentos da melhor maneira possível.

Comecei a escutar uma melodia de leve do início da música que estava cantando. Notas musicais vinda de um piano, certeza. Será que enlouqueci e estava começando a misturar pensamentos com realidade? Não ia levantar mais uma vez e encarar a sala vazia. Seria doloroso demais. Em vez disso, comecei a cantar mais alto pra ter certeza se a música me acompanharia no volume ou isso tudo estava acontecendo de verdade. O som continuava o mesmo.

Certo, vou buscar meu atestado de loucura. Só eram apenas alguns passos. Caminhei na ponta dos dedos e com as mãos tocando as paredes. Meus olhos estavam fechados e o volume aumentava quando eu chegava mais perto. Meu coração acelerava no mesmo ritmo. Posicionei-me na frente do piano imaginário dos meus pensamentos e podia vê-lo ali tocando só para mim como sempre fez. Respirei fundo. Mais uma vez. Mais uma vez. Abri os olhos.

Não é exagero dizer que minhas pernas perderam as forças e cederam por alguns instantes. Nem que meus olhos encheram de lágrimas automaticamente e não precisou piscá-los para que elas caíssem. Observei por alguns segundos seu sorriso em direção a mim. Meu coração começou a doer de tão forte que batia. Corri para abraçá-lo que foi correspondido na mesma intensidade e que o fez parar de tocar. O silêncio que tomou toda a casa não me agonizava mais.

Muito tempo se passou. Abraços, beijos, carinhos: saudade.

Enxuguei meu rosto em sua camisa e ele me abraçou de lado encarando o piano em nossa frente. Pegou por cima da minha mão, levantou o meu indicador e começou a apertar nas teclas. Demorei a entender que estava me ensinando a tocar a minha música.

domingo, 27 de novembro de 2011

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